scriptum tremens
10.28.2003
Quão difícil é o encontro com pessoas, situações, pensamentos, de onde possamos extrair algo de novo, aprender...
Talvez seja por este facto que o deslumbre de irmos de encontro a um tal acaso nos traga à expressão um misto de surpresa e alegria, numa dança de olhos e boca que encanta o mais sólido dos calhaus
Anúncio do mundo: precisamos de luminosidades novas e envolvências extremas c/ urgência
10.19.2003
noite serrã
Um abraço de morte me envolve
Aqui nestes lugares altos da serra
Onde o mar das estrelas está mais perto dos olhos sedentos
E os grilos são o prenúncio cantado do mistério do desaparecimento
Ocultos alguns deles
Faiscantes outros
Embalando paz nos corações que repousam na rudeza simples do sono
Aqui a vida desenvolve-se lentamente
Numa pacífica erosão de séculos imensos
Limam-se as pessoas como os montes
Saboreando a languidez típica que a rotina das estações encerra
Numa melancolia circular
Quando a lua segue rasa ao horizonte
Prenhe de imaginações e estórias de almas penadas
E alcateias
Um manto de mistério azulado repousa sobre tudo
Desvendando a silhueta feminina da cordilheira ao toque do horizonte
Os refegos das veredas que se cruzam
Num esconder eterno do sexo da terra
Ao primeiro uivo de um cão
Talvez de um lobo
Preenche-me a imaginação uma vestal andarilha
Em fuga nunca saberei de quê
De quem
Jogada em medo pelo meio dos pinhais
Assomando aqui e ali no cabeço do monte mais elevado
Gritando ao grande disco fórmulas indizíveis
Rasgando com as unhas as alvas vestes
Expondo ao cuidado da noite a rósea pele
Suplicando-lhe num grito menstrual de adolescente
A súbita aparição de um amante
Que lhe lamba a virgindade dos dedos ensanguentados
Longínqua visão
Essa lá no cimo do alto cabeço de Fajão
Perceptível apenas pelas poderosas lentes
Desta imaginação boémia
Despertada em sereno vaguear pela música invisível
Que entoa esta envolvente corola de escuridão
Alcofa de treva desta aldeia flor que dorme em sobressalto
Com o movimento imperceptível dos bichos da serra
(como um cepo num socalco)
Sonhando expectante
Oníricas maravilhas de desejo orvalhado
Pelos ternos e firmes dedos
Pela luxúria órfica dos raios do sol
Que subirá matinal pelo peito da serra
Ao me embrulhar neste cenário
Sinto a pequenez de todo o que sou por fora
E acho-me ridículo
Superficialmente ridículo
Mas o que me é interior
Parece erguer-se de forma tão imensa
Que dir-se-ia encontrar na paisagem alguém
Finalmente à sua altura
Limito-me a repousar à minha sombra
Assistindo pasmado a esta comunhão abençoada pelo silêncio e pela treva
Nada vejo
Tudo pressinto
Escondido da minha pequenez no calor deste abraço que no meu interior se desenha
eu-serra-escuridão-azul-escuro-magia-lua-bichos-vento-chuva-limpo-tudo-vazio-eu
Numa enorme vontade de solidão de humanidade
No arreganhado desejo de ser eu a serra
De ser meu o sangue que escorre das árvores feridas
De ser eu que entoo baixinho o canto insonoro que a tudo embala num sono de sombras
De ser eu o pano onde as constelações aldeãs permitem haver nomes na noite
De ser eu eu próprio
Liberto da minha pele
Espalhado pelos muitos silêncios da terra
Ser apenas assim
Puro e misterioso
Como a noite na serra
sopro a golfada o toque
subtil de uma mão transparente
com um nó nos dedos arejados pela cor da sensibilidade mortífera
- lembro-me de ontem me terem dado à sensação a visão de uma nuvem deformada –
um nó de porta na caverna dos rabiscos manuais
amando cada vento que pernoitava nos ex passos em volta
e havia sempre uma voz de pele que se deleitava com o som das paisagens desenhadas
na doçura de então os movimentos eram de pétala rosada
numa leveza extrema roubada ao peso das coisas
e eu não sabia
percebe
eu não sabia sequer que era eu
quanto mais o que era isso de eu
além do nome falso que me haviam aposto
são escamas o que agora me cobre a crueza da carne
laminadas
pele velha
e por dentro eu tão novo
tão infantil
que
nota
preciso de espelhos deformados para ocultar esta aparência reptilínea
enquanto brinco no espaço que me resta
ainda a mão
com que me percorro
me defino
demiurga prenhe dos universos rasgados na tinta que vomito
negra como a noite
brilhante como o dia
uma mão transparente repleta de nós paradoxais
sublimada em barreira frustrante para o horizonte que se esconde para lá de si própria
a chave e o segredo
a palma e o verso
- sempre as coisa diferentes me pareceram uma mesma simetria de algo que se desconhece -
sempre a mão
com que me percorro
me mutilo
amante longínqua num prazer de seiva
louva a deus
como a amo
como a abomino
dela a esperança a luminosidade que preenche as covas dos dentes da alma
dela a adaga que me percorre sangrenta o espírito desprevenido
abrindo para a terra do mundo as águas do fértil desassossego
para sempre a mão
com que me percorro
me recrio
pela borda abismal do poema impiedoso
envolvido pelos ventos que insistem no caos
- como idolatro o caos quando encontro mãos irmãs envolventes cruéis de tanto quererem –
e a partir da morte autofágica em que aquieto a mão que me dilacera
fertilizo-me e renasço
habito-me numa fantasia de nós
10.01.2003
poema directo
És o escondido e o escolho
A prática necessária no exercício do arbítrio
Mas
Olha para lá
Para o horizonte
São demasiados amores largados
Desprezados
Nas ondas da eternidade
Nascidas não da lua
Dói-me o corpo
Na tempestade do que sei que nunca serei
E uma criança abarca tudo
Senhor e escravo do que serei
Mares
Terras
Céus
Onde as asas serão apenas enfeites
Velhos
Sonho
E nunca alcanço
A não ser no sonho
As mãos dolentes que puxam a corda
Da velha caixa de música
São da minha mãe
Dói
E as sílabas escasseiam
Mas dói
E é bom
Estar vivo
E saber que a morte vai ocupando
Lentamente
Como uma amante desejosa
O seu espaço
Na cama do amado
O que me faz impressão
(e nunca o houvera registado)
É não morrer
Mas tão só não existir
(pressente-se o velho medo dos meios que não serão nunca fins)
Oh
Ah
Ih
Solidão
Como a do homem que se apercebe do vazio
Em que nasce existe morre
Este é um poema demasiado directo
Justificado pela ebriedade pura
Sem desculpa
Sem perdão
Daquele que sabe
Que sente
Esperar pelo amor pelas mentiras
É a algozisação de si próprio
Existem
Eu
Nós
Horizontes e limites
E para lá dos horizontes e limites
Ele há outros horizontes e limites
Quem se junta comigo
Quem quer tentar vencer o desconhecido
Sabendo que tudo aquilo com que se deparará
Será o eterno inexplicável?
Eu junto-me
A mim