scriptum tremens
8.26.2003
Recebo-te no grande deserto que me preenche o vazio
Na noite estrelada onde os sussurros do vento anunciam a pureza das cores
Em desbravando os limites deste mundo interior com os meus braços abertos
Inscrevo-me no horizonte em ardente sinal de desejo pela tua sede
Sei que aí vens
E contigo caminha a marca da minha morte
A mão que recolherá o corpo defunto no seu próprio ventre
A boca de onde os meus beijos continuarão a desaguar
Os olhos que continuarão a imprimir os meus desassossegos na paisagem
Sei que aí vens
(e és tu, digo-te, a minha morte a minha vida as asas que me roubarás)
Sei que sentirás
No rosto a língua quente que me devora o interior da boca
Ansiosa por afectos palavras perguntas emoções pela tua língua
Percebo-te como o abismo onde entregarei como justa paga da tua recompensa
Boa parte do meu espírito e umas quantas inquietações abandonadas
(custa-me que tanta coisa que não eu se prepare para te invadir o livro em branco)
Vem
Repito-te
As palavras de nada valem ao te fundir aos meus braços
Ao meu peito de ferro derretido
Chegará o dia em que lá verás que a tua forma
Tatuada em tons de carne prateada
(saberás aí que me transformaste mais que eu a ti que me roubaste que eu queria)
Sei que aí estás
Embalada com o teu primeiro conhecimento do universo
Rodeada por um calor calmo que se extinguirá na estupidez
(de teres de crescer chegar a jovem adulta velha morta)
Encarnando uma personagem inconsciente num moldura onde se desenhará
(ouve o rio, será com o correr lento rápido incerto do tempo)
A obra-prima do mistério da vida
Da vida de Maria
Sei que sentes
As profecias que te segredam irritantemente, tu criança inocente
Do serás isto aquilo ou ainda o outro
Do terás de fazer isto não poderás fazer aquilo
Do que bonita que és irás ser
Do pareces-te com este aquela ou o outro
(mas percebe, esses não quererão responder às perguntas que lhes colocares)
Será instante a instante que quebrarás as regras antigas
Que recusarás os grilhões que te hão-de querer vender
(olha-me nos olhos, que saberás nunca deixar de ser criança de fazer perguntas estúpidas incómodas)
Vem
Alcançaste a raiz da árvore da vida e da ciência
Sabes quantos ramos ainda tens de nascer para alcançar os braços da lua?
De ti brotarão as folhas que serão lambidas pelo sol
Virá o vento amante que te envolverá só com o fito de te desfolhar
Do teu ventre brotarão as flores que embelezarão o cabelo divino
E farás chegar às bocas de quem precisa os frutos maduros das tuas dádivas
Vem
Tudo te espera
É amarga a alegria que me invade as grutas sombrias
Que preenche de um aroma embriagante o pomar decadente do meu espírito
(que com um toque teu não sem nenhum toque ressuscita numa loucura esverdeante)
Amarga como o saber-te o princípio do meu fim
Amarga como o saber-te maior que mim próprio
Amarga como a largura dos dias em que desejar os teus olhos
A tua voz
O teu abraço
Um beijo uma palavra que principie a nascer da tua boca
Amarga como a distância que quando ao me leres
(quando fitares os lábios vermelhos destas palavras nesse ponto hoje longínquo)
Terei percorrido na procura de uma paixão
Amarga
(talvez apenas a paixão de me querer criança de fazer perguntas de olhar para mim e sentir o que senti hoje quando te vi)
Talvez longe talvez perto sempre distante
(posso-te pedir que me grites o meu nome pai ao vento quando sonhares comigo que tentes sempre sempre roubar-me as asas?)
Sabes
Seria ridículo dizer-te que nasceste hoje
Naquele dado local àquela dada hora com aquele dado peso
Tão absurdo como tentar apanhar um bocado do rio do tempo
Com uma mão aberta
Com um crivo de areia
Compreenderás que não nasceste nunca
Pois existes, simplesmente, sem nenhuma razão ou sentido para isso
Que ao existires todo o momento é um nascimento
Uma mudança em que te reinventas
Maria
Sempre diferente
Maria
Nunca igual
Nunca idêntica
Sempre Maria
(o mal dos computadores é que as lágrimas não tingem a tinta das palavras)
Vem
Maria
Há alturas em que as palavras inundam os pulmões e trazem o afundamento
O esvaziamento precoce do que é pedido pelo sangue
Vem apenas
Maria
Vem
8.20.2003
Certo dia acordei submergido pela água. Não me surpreendeu. Permaneci quieto por longos instantes a sentir a ligeira ondulação motivada pelas cadências involuntárias do meu corpo.
A água provocava ligeiras distorções nos raios de luz que escapavam das mãos das nuvens, tornando tarefa ingrata distinguir se o dia caía à sensualidade felina da noite, se antes despertava e emprestava vida ao universo natural.
Cerrando as pálpebras, viajei por devaneios eléctricos sob o signo aquático.
Subitamente, como se o cosmos atingisse um orgasmo, o oceano foi violado por um sismo. Fui expelido de forma brutal para o meio gasoso. Impossível descrever a dor. As palavras são demasiado sólidas para se narrar toda a inacreditável extensão de sensações. Falta-lhes sentir a flexibilidade líquida da música.
Ultrapassada a barreira de adaptação da cognição ao novo meio, hostil por definição, pressenti asas nas minhas costas.
Voar e nadar são duas faces de uma mesma actividade. Trata-se, em ambos os casos, de desenvolver a capacidade de compreensão das melodias que regem o funcionamento dos dois universos, para de seguida se ir acrescentando os nossos próprios tons à partitura. Importante é entender que mais que compor, a locomoção nestes casos implica que sejamos a própria escrita, nós as notas das partituras. Tal como na vida em geral, não somos viajantes, somos a viagem. Tal como não escrevo, não sou o agente activo, mais posso dizer ser as palavras e os significados. Mesmo os mais ocultos.
Nesse saudado dia, em que acordei debaixo de água, franqueei os portões do sonho envolvido pela inércia cósmica do ar.
Por lá fiquei, esperando a materialização espontânea da minha essência perdida nos crepúsculos melancólicos dos dia que não acabam. Que teimam em não acabar.
8.11.2003
narco 2
Há alguém parado no meio da estrada. Em volta apenas a aridez do deserto de areia azul, grossa, e um céu onde seres bizarros se divertem a atirar flocos de nuvens entre si.
Há alguém parado no meio da estrada e, ao longe, uma forma que se aproxima velozmente. Tabuletas surgem repentinamente do chão, fazendo pop como nos desenhos animados (quais?). Têm formas diversas e caracteres que legendam imagens estranhas. As tabuletas que têm setas são triangulares, apontando par o vulto cada vez mais próximo, como quem aponta um dedo para chamar a atenção para alguma coisa que surge.
Há alguém parado no meio da estrada, sou eu, à minha frente (se bem que eu não esteja ali) encontra-se uma silhueta de um centauro com busto de mulher e cauda de dragão. Eu (ele?) monto a mítica figura e juntos percorremos, mais rápidos que o tempo, a estrada até ao fim do horizonte.
A figura equídea estaca subitamente no final do troço e sou arremessado para o grande vazio que preenche o espaço após o fim do deserto. Vejo-me com um expressão de pânico, a desejar acordar. Entretanto devo-me (deve-se?) ter recordado que era um anjo, pois duas alvas formações de penas surgem subitamente nas minhas costas.
Sem notar qualquer intervalo, estou no meio de um cemitério. As campas são prateadas e não há cruzes. Também não existem portões nem muros. Uma das pedras torna-se transparente, possibilitando vislumbrar o que se oculta por baixo da mesma. Aproximo-me e observo a transformação de um esqueleto numa bela mulher, que por me fita com olhos raiados de sangue verde.
Sinto-me a ser atraído contra minha vontade para de encontro à criatura. Fecho os olhos e quando os torno a abrir vejo-me a olhar para mim de dentro da campa, onde me encontro agora. É tudo demasiado terrível, demasiado fantástico.
Tento gritar, não consigo. Vejo de encontro à lua as silhuetas dos seres bizarros que brincavam com as nuvens, agora agachados por trás de um olhar triste. E, lá fora, eu, a olhar para mim, cativo contra vontade na eternidade do túmulo.
Onde estou? Observo o interior da campa, estou dentro da campa, sou o espectador etéreo deste teatro?
As paredes do quarto encolhem-se perante o meu grito mudo. Não está mais ninguém aqui.
Na penumbra noto uma silhueta difusa, que recua e atravessa a parede quando me aproximo.
Corro ofegante para fora de casa em procura de alguém, uma sombra.
Encontro apenas o cão.
8.07.2003
narco 1
Não chove deste lado do mundo.
Entretenho-me a garatujar banalidades nesta noite sem destino, enquanto aguardo que alguém toque com os nós dos dedos na porta de entrada.
Lembro-me vagamente de um cigarro que se consome lentamente noutra divisão, e apercebo-me da solidão absoluta que me rodeia agora.
Paro para dar um gole na cerveja. Não consigo pensar em nada. Existe demasiado vazio nestas paredes brancas. Nem os bichos de conta da longínqua infância se passeiam por este cais desaproveitado.
Podiam aparecer uma fadas, alguém que viesse brincar comigo. Estou terrivelmente farto de viver para lá da morte. Tento perceber o instante em que as crianças morreram, e só assomam à memória as correrias loucas e algumas experiências sexuais precoces. Coisas tão distantes que mais parecem ter existido apenas como um sonho. As mentiras que nos fazem engolir já são tantas, quem ou o quê nos garante não passar a saudosa infância de apenas mais um belo sonho?
Na rádio passa uma ária de uma qualquer ópera alemã. Vozes fortes, sentimentos épicos, a magnífica tragédia humana em estéreo sem cores. Que amores proibidos, dramas majestáticos, vociferarão essas criaturas que talvez já tenham morrido? Nada que interesse muito. Afinal, tudo é efémero, tudo talvez mais não seja que um sonho, um terrível sonho. Mas para haver sonho não tem que haver alguém?
Talvez não. É apenas mais uma certeza impossível de ter.
Batem à porta. Será real?
Rodo a maçaneta apreensivo. Alguém entra.
Fazemos amor sem uma palavra.
Adormeço, batendo três vezes na porta espelhada do sonho.